Sob o Céu do Cruzeiro

Um blogue catolico e nacionalista.

domingo, julho 31, 2005

Trez sonetos de Gregorio de Matos

I

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemencia me despeço;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada,
Gloria tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra Historia,

Sou eu, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa gloria.

II

Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
Verdade é, meu Senhor, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade que encaminha a vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido,
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me abraços,
Abraços que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais braços,
Misericordia, amor, Jesus, Jesus!

III

A vós, correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lagrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

quarta-feira, julho 27, 2005

Dante e o Cruzeiro do Sul

Há quem diga que a mais antiga referencia da literatura ocidental à constelação do Cruzeiro do Sul foi feita por Dante Alighieri, no Canto I do Purgatorio:


I'mi volsi a man destra, e puosi mente
all'altro polo, e vidi quattro stelle
non viste mai fuor ch'alla prima gente.
Goder pareva il ciel di lor fiammelle:
oh settentrional vedovo sito,
poi che privato se' di mirar quelle!

(Purgatorio I, 22-27)

Em portuguez:

"E me voltei à direita, e conduzi a mente
ao outro pólo, e vi as quatro estrelas
nunca vistas, salvo pela primeira gente.
Alegrar-se parece o céu de seus lampejos:
Ó Setentrião, lugar viúvo,
pois que privado está de mirá-las!"

Dante diz aqui que, levando a atenção ao outro pólo (o Sul), viu as quatro estrelas, que jamais teriam sido vistas por homem algum antes da morte, salvo pela "prima gente" -- o primeiro casal: os biblicos Adão e Eva. O florentino compartilha da crença medieval de que, sendo a Terra redonda, o Paraíso terrestre ficaria no Hemisferio Sul, o qual não seria habitado (essa estoria de que na Idade Media o pessoal achava que a Terra era plana é patacoada, mentira inventada no seculo XVIII).

É compreensivel que Dante tenha se referido ao Cruzeiro como "quatro estrelas", pois a constelação é formada de quatro estrelas mais brilhantes, e uma quinta de menor grandeza, a epsilon.

Diz ainda Dante que o Hemisferio Norte está "viúvo" ("oh settentrional vedovo sito") por não poder contemplar o Cruzeiro.

Quando a Estrela Polar mergulhava no oceano, era o Cruzeiro a seguir de guia aos marinheiros portuguezes que, "por mares nunca dantes navegados", aventuravam-se ao sul do Equador.

Uma curiosidade: atualmente a constelação do Cruzeiro do Sul não pode ser vista da Terra Santa, mas era possivel visualizá-la nessa região na epoca do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Jamais conseguirão arrancar de nossos corações, a Santa Cruz que o Criador inscreveu nos nossos céus.

Filosofia e Ideologia

Em nosso artigo anterior, tínhamos exibido um exemplo de como o modo ideologico de ver as coisas pode distorcer a apreensão da realidade. Na presente comunicação, temos por objetivo descobrir como se distingue uma avaliação dos fatos feita segundo uma perspectiva filosofica de uma efetuada desde uma perspectiva ideologica.

O traço essencial da atitude ideologica é conceder mais importancia às ideias do que às coisas. Ou seja, ao contrario da sã Filosofia, a ideologia pressupõe sempre uma separação entre coisas e ideias. Enquanto na Filosofia, se pretende chegar à verdade das coisas através das ideias, na ideologia estas adquirem valor independente das coisas a que se referem, tomando vida propria. Assim sendo, a atitude ideologica exige, como condição necessaria para existir, um erro fundamental a respeito da inteligencia humana.

O filosofo espanhol Xavier Zubiri definia a verdade como a posse intelectual do ser das coisas. Toda a Filosofia de Aristoteles e Santo Tomaz de Aquino enfoca a inteligência humana não tanto como uma faculdade meramente representativa ou operativa, mas fundamentalmente como faculdade apreensiva. Mais do que produtora de ideias, a inteligencia é uma faculdade que capta algo. E o que é esse algo que a inteligencia percebe? Ora, a Filosofia demonstra que o objeto formal da inteligencia (isto é, aquilo que a inteligencia capta em primeiro lugar e em razão do qual capta tudo o mais) é o ser. A inteligencia capta o ser das coisas, e as coisas são captadas pela inteligencia na medida em que têm ser. Quando a ideia (forma inteligida) produzida pela inteligencia corresponde à ideia (forma inteligivel) existente na coisa, temos a verdade -- adequatio rei et intellectus, segundo o adagio escolastico.

Dentro dessa concepção fica até estranho pensar a respeito de uma contraposição entre idéias e coisas. Semelhante contraposição só pode ocorrer depois de as ideias terem perdido qualquer referencia às coisas mesmas. Assim, por mais coerente e logico que possa ser um sistema ideologico, seus postulados e conceitos fundamentais terão sempre mais a ver com a fantasia e o arbitrio do que com a propria inteligencia. Um exemplo disso é a politica moderna, fundada por Hobbes, Locke e Rousseau sobre os conceitos de estado de natureza e contrato social. Ora, estas são noções puramente quimericas, destituidas de qualquer fundamento na realidade -- entes de razão sine fundamento in re, como diriam os escolasticos. Todavia, sobre esses conceitos vazios se construiram estados, se fizeram constituições e se organizaram muitas das instituições que até hoje nos dirigem.

Partindo de conceitos fantasticos para compor um sistema de ideias capaz de orientar a ação politica, a ideologia ao invés de explicar a realidade da vida social, de fato a encobre à compreensão humana. Dando a questão por resolvida, não se pergunta sobre a verdadeira natureza da sociedade, que passa a ser organizada de acordo com principios artificiais e preconcebidos.

Uma vez que a ideologia parte não da realidade e da experiencia, mas da fantasia e do arbitrio, não pode ela deixar de ser dogmatica. É certo que a religião também tem seus dogmas, porém os dogmas da religião catolica se referem a realidades que estão acima do alcance da inteligencia humana e que admitimos como verdadeiras por fé na Revelação divina -- Deus, que é a propria Verdade, não pode mentir. Os dogmas da ideologia, entretanto, se referem a realidades que estão no ambito de investigação da razão humana. Enquanto os dogmas da religião elevam o homem a realidades que ele desconhece, os dogmas da ideologia o alienam das coisas que ele pode conhecer naturalmente.

É a ideologia, pois, um sucedaneo perverso da religião. E enquanto a fé nos dogmas da Religião está alicerçada na infalivel autoridade divina, que não se engana nem pode enganar, a fé nos dogmas da ideologia só pode fundamentar-se no apego afetivo e sentimental dos seus sequazes. As ideologias têm por fundamento um dos amores mais esquisitos, que é o amor por idéias. Aliás, é proprio da atitude ideologica amar mais as ideias do que as pessoas concretas. O filosofo não ama ideias, ama a verdade; por isso um verdadeiro filosofo se alegra quando, ao perceber que estava enganado, descobre nova verdade. O ideologo, pelo contrario, se entristece quando os argumentos ou os fatos desmentem as suas ideias tão queridas, a ponto de muitas vezes cometer o absurdo rejeitar a verdade para ficar com as ideias que ama. É por esta razão que o processo de se desvencilhar de uma ideologia dói tanto -- é como terminar um relacionamento amoroso.

Porque partem de principios arbitrarios, as ideologias quebram a relação entre juizos de valor e juizos de realidade, enquanto que na Filosofia os primeiros sempre estão fundamentados nos segundos. Isso faz com que as ideologias, apesar de dogmaticas, venham a conduzir a cultura a um relativismo axiologico cada vez maior.

Outra inversão caracteristica das ideologias é determinar a teoria pela prática, explicar a realidade com base no mundo que se quer moldar. Tenta-se deduzir o ser a partir do dever-ser. A Filosofia, pelo contrario, procura determinar o dever-ser partindo do conhecimento do ser. É da natureza do homem que a Filosofia colhe a natureza da sociedade, e é a partir do entendimento do fim natural da sociedade que o filosofo vai dizer como ela deve ser.

Tomando representações puramente mentais como realidades concretas, e fazendo delas objetos de amor e devoção, a atitude ideologica é um vício da inteligencia e uma tentação permanente para o homem moderno. E somente poderá ser vencida pela afirmação do valor da inteligencia e da sua capacidade para compreender a verdade das coisas.

Cegueira ideologica

Em recente artigo publicado na internet, o Dr. Emir Sader, professor da USP e da UERJ, proporcionou a nós todos um caracteristico exemplo do nivel de cegueira a que é levada a mente humana, quando ela se deixa conduzir e viciar por aquilo que poderíamos chamar de pensamento ideologico, ou modo ideologico de ver as coisas.

Toda ideologia é feita para o enfrentamento, para a luta politica. "A politica é a continuação da guerra por outros meios", como diria Carl Schmidt. E portanto, toda ideologia, de direita ou de esquerda, "conservadora" ou "progressista", precisa eleger um inimigo. É imperioso que o inimigo, uma vez escolhido, perca todas as suas caracteristicas proprias de pessoa humana concreta, para ser reduzido a um estereotipo. Descaracterizado como gente, reduzido à condição de caricatura humana, o inimigo está pronto para que sejamos dispensados de ter para com ele aquele respeito que só devemos a uma pessoa. Está pronto para ser injuriado, caluniado, agredido e fuzilado. O pensamento ideologico é, portanto, inimigo da compreensão e da comunicação. Ao invés de abrir-se à compreensão do outro, o pensamento ideologico supõe já haver compreendido inclusive a sua mais íntima essencia, que é sempre maligna. Não importa o que faça, o inimigo sempre o faz com as mais perversas intenções. Ele é incapaz de conceber o menor gesto de bondade, e deixá-lo à solta constitui sempre um perigo publico.

Em outras palavras, o pensamento ideologico coloca o sujeito na posição de Deus (pois só Deus conhece de antemão as intenções e o profundo do nosso coração) e reduz o outro à condição de demonio (pois só o demonio é capaz de pecar mortalmente em tudo o que faz).

No artigo "Politica e religião em livros de ficção cristã", o prof. Emir Sader exibe o quanto a ideologia laicista, patrimonio comum do liberalismo e do socialismo, viciou a sua compreensão do fenomeno religioso. Neste, o eminente professor não consegue enxergar nada de maior senão um perigo para a democracia, a qual deve estar acima de todas as crenças. É bem possivel que ele não tenha atinado para o significado profundo do que estava dizendo: sustentar que qualquer forma de regime politico deva estar acima das religiões é, ipso facto, colocar o poder politico no lugar reservado a Deus como valor supremo e absoluto. Em outras palavras, "a Cesar o que é de Deus".


Deixando supor que conhece perfeitamente a essencia do fenomeno religioso, o eminente professor afirma que "a religião se funda em crenças, em dogmas e em fé -- fatores subjetivos que são incapazes de dar fundamento a relações politicas democraticas". Ao dizer isso, o professor revela desconhecer a religião natural, que é uma religião sem dogmas, que compreende todas as verdades que dizem respeito a Deus e podem ser universalmente conhecidas pelo homem, unicamente à luz de sua razão natural, sem o concurso da fé ou da Revelação. Com efeito, a existencia de Deus pode ser metafisicamente demonstrada, como foi realizado por Aristoteles e Santo Tomaz de Aquino. Uma obra excelente a respeito dessas demonstrações é "O homem perante o Infinito", do filosofo brasileiro Mario Ferreira dos Santos, que ainda se pode encontrar em sebos, enquanto alguma editora não resolver prestar à Patria o serviço de republicar os escritos desse original pensador.

Um outro efeito do pensamento ideologico é a perda do sentido das proporções. Assim sendo, o prof. Emir Sader aponta como um perigo "assustador" o recente sucesso de livros de ficção cristã escritos pelo pastor batista Tim LaHaye. Semelhante exito de vendagens seria o prenuncio do Estado fundamentalista que estaria para se erguer na America, alerta amedrontado o professor. Creio que ele pode ficar sossegado: por mais que LaHaye venda livros, não acredito que ele possa reunir a força politica necessária para revogar a Emenda n. 1 da Constituição norte-americana, que estabelece a laicidade do Estado, nem que tenha a menor intenção de fazer isso.

É curioso notar que a propria informação que Sader nos fornece a respeito do livro é capaz de colocar no ridiculo o seu temor de um surto de discriminação religiosa em larga escala. Segundo afirma, na ficção de LaHaye o Anticristo se incorpora no Secretario-Geral da ONU, cria um governo mundial e impõe ao mundo todo uma unica religião. Qualquer observador isento diria que o livro é um libelo contra a imposição religiosa por parte do Estado.

A seguir, o prof. Emir Sader tenta passar a ideia de que o cristianismo -- vejam só! -- não é muito melhor que o nazismo. Segundo o emerito professor, os livros de LaHaye, que vendem mais que as memorias de Hillary Clinton e os contos de Harry Potter, teriam um conteúdo "intolerante e racista", com enredos violentos. Confesso estar impressionado com a paciencia do prof. Emir Sader, em ler os doze volumes da coleção escrita por LaHaye, para assim chegar a conclusões tão graves com conhecimento de causa. Quanto a mim, que não tenho o menor interesse em ler as obras apocalipticas do dito pastor, pude apurar que a pior critica que se faz aos livros é a de serem repetitivos. Até onde sei, o prof. Sader é o primeiro a apontar-lhes a pecha de racismo.

Ainda em relação às acusações de racismo, causa especie o fato de Emir Sader, que sempre atacou o Estado de Israel, vir a publico defender o povo judeu contra as obras de ficção supostamente anti-semitas de LaHaye. E se essas obras racistas e intolerantes são bastante similares e paralelas aos discursos de Bush, conforme assevera o Prof. Sader, como se pode explicar a presença em seu governo de uma Condoleeza Rice ou de um Collin Powell, ou as relações estreitas que Bush guarda com o governo israelense?

Levar o artigo escrito por Sader a serio só pode levar a infindaveis contradições. Com efeito, não se trata de uma apreciação isenta e objetiva dos fatos, mas de um discurso essencialmente ideologico que, de modo consciente ou não, procura deformar e caricaturizar o cristianismo e a religião para torná-los odiosos à opinião publica.

Essa vai pro mural

Advogado que sou, tenho por obrigação profissional e moral inteirar-me das leis e das novidades legislativas. Ontem, estava dando uma passada de olhos no recém-promulgado Estatuto do Idoso e encontrei uma verdadeira perola:

Art. 8o. O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta lei e da legislação vigente.

Trocando em miúdos: a partir de 01/01/2003 o envelhecimento tornou-se, no Brasil, um direito explicitamente reconhecido pela legislação. E mais, não um direito qualquer, mas um direito personalissimo. Ora, os direitos personalissimos, ou direitos da personalidade, são aqueles dotados de intransmissibilidade, irrenunciabilidade e indisponibilidade (art. 11 do Código Civil). Portanto, segundo o Estatuto do Idoso, ninguém poderá ficar velho no lugar de ninguém (porque o envelhecimento é um direito intransmissivel), nem poderá renunciar ao envelhecimento (porque os direitos personalissimos são irrenunciaveis). Resta o consolo de dizer que, ao envelhecer, estamos no exercicio regular de um direito reconhecido...

E a coisa não pára por aí: o mesmo dispositivo do Estatuto torna a proteção do envelhecimento um direito social. Reparem que o direito social não é a proteção do idoso, mas a proteção do envelhecimento. Ou seja, se por absurdo alguém descobrir um tratamento que possa reverter ou retardar o processo natural de envelhecimento, poder-se-á propor uma ação civil pública contra o autor da descoberta, uma vez que atenta contra um direito social expressamente reconhecido pelo Estatuto.

Mas, como devemos ver o lado bom de todas as coisas, a boa noticia é que a lei, embora mal redigida, coloca um obstaculo ao avanço da eutanasia. Com efeito, se envelhecer é um direito irrenunciavel e indisponivel, não há como justificar o homicidio como meio de abreviar o sofrimento decorrente da velhice.